quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Refazendo-me mais um pouco

Descobri uma mulher disposta a amar porque fora desamada. Mas para seu sofrimento queria amar num sentido em que fosse impossível amar o objecto amado. Era amar sem reter, um certo amar egoísta e apenas ao seu modo. Amar sem intimidade, sem entrega. Queria amar sem entrega, compromisso ou futurizar amanhãs assim como quem deita conversa fora,. E não é que alguém apanhou essa conversa?

Agora, coitada, ama. E desgostosa desse amor que não queria e para o qual não tinha apetite. E deseja, para si, a tranquilidade de não ter amor! Futuriza sem futurizar e amar sem amar. Ficou como uma árvore que secou mas ainda assim sobrevive ao tempo com vaga e ténue folhagem. É uma árvore de Outono.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Refazendo o existente

Durante anos fizeram, diariamente, o mesmo percurso. Esperaram e correram ao mesmo tempo. Riram e chatearam-se pelos mesmos motivos. Fizeram as mesmas conversas e tiveram os mesmos temas. Descobriram razões e, também, algumas emoções. Terão feito o mesmo caminho onde traçaram uma intenção de destino. Foram, durante um tempo, quase os dois num. E foram assim, como foi o tempo.
Sem saber e sem se querer, um dia, um foi deixando de ser o um para o outro. Deixou de fazer o percurso e passou a andar ao lado. Não fazia já a conversa, mas ouvia e, se calhasse, opinava. Passou a sorrir quando o outro ria, a concordar em vez de apoiar. Os caminhos passaram a ter destinos diversos. 
No meio ficou a cumplicidade do que nunca foi mas poderia ter sido. Um livro cuja capa foi aberta permitindo que todos os enredos fossem inventados. Não aconteceu a audácia de se fazer romance, drama ou apenas uma novela.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Acaso se pode turvar o puro?

Naturalmente, e essencialmente, não.
Puro que é puro não se turva.
Depois falaremos de Deus.
O tema, no fundo, é sempre o mesmo. Apenas muda a figura expressa

Guincho

Dizem que vagueia um espírito no longo areal. Que diz, cifradamente, o que alguns conseguem ouvir. E, os que o ouvem, entendem-no como alma fosse. É o ar de quem nele passeia. E é o espírito do passado que nunca houve mas que se deseja que houvesse acontecido e sido.
E de tão desejado passa a ser um pretérito que é todo o futuro de quem vive com esse ar dentro de si. Para os demais é apenas vento, rajadas por vezes... chegando a ser desagradável e maçador. Um ar que ganha intenção quando agita os que o ouvem.
Quanto ao resto, é uma praia com nortadas.

Regra de ouro

Geralmente as conversas entre seres humanos são isso mesmo, conversa, comunicação. Tomar tudo como ataques pessoais é reduzir a capacidade do homem viver em sociedade.

Nota: Dispensa-se descrições de personalidade ou feitios, pois que, invariavelmente conduzirão à segunda frase.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Fim

Não há expectativas.
Há erro
E mais erro
E mais erro
E volta a haver erro
E engano também
E preto
E desolação
E erro!
Não há futuro
Porque nada há a futurizar
Tudo é erro

Quase quadra

Trago-me assim
Neste outro caminho
Onde caí
Assim que me nasci.

Mágoa

Trago uma mágoa
Que é sempre a mesma,
Ainda que diversa.
É substante
E quase essencial.
É uma parte
Que se faz todo
E alastra a tudo
E em tudo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lendo 184

"O ser feliz, afinal,
Neste pouco se contém:
Extrair do nosso mal
Alguma soma de bem...
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 100

Quantas vezes cabe apenas ao meu eu a capacidade de se conformar com o mundo e nessa conformização recolher, tão somente, aquilo que me pode fazer bem. Será sempre uma arte de viver.

Lendo 183

"Na rua da Piedade
Encontrei-te, à luz da Lua.
Ia a dizer-te a verdade,
Lembrou-me o nome da rua..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 74

Quantas vezes me perdi por não me ter lembrado em tempo do nome dessa rua. A verdade é algo que para ser escutada, precisa que quem a irá fazer tenha aptidão para o efeito. De resto pode ser, apenas um exercício de sadismo encapotado.

Lendo 182

O amor é duna de areia
(Varia, mal se formou)
Rompante de maré cheia,
(Água o deu... água o levou)
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 61

Com o tema do amor colocado desta forma, devemos estar a falar dos chamados amores de Verão, que entram na época e saem com a entrada de Setembro, fruto apenas da leveza da estação.
Há, no entanto, uma outra noção curiosa, é que o amor é dinâmico e não algo estático. A duna de areia forma-se com o vento, restará saber qual o vento que forma a duna desse amor. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A insensatez declarada

Ban Ki-moon, actual secretário geral das Nações Unidas afirma que "Próximo secretário-geral da ONU "deve ser mulher"...

Ser mulher passa a ser um requisito? Até onde pode a ausência de sensatez levar o mundo? Importa mais se é mulher os se está preparada para o efeito? Interessa mais ser mulher ou qualquer outro requisito? O que é "ser mulher"? Que valor estratégico tem? O que é que acrescenta? Será que a humanidade andou perdida milénios por não ser orientada por mulheres?

Mais uma prova evidente que o caminho que a humanidade segue é o errado. Vamos caminhando em função de ideias "progressistas" em vez de progresso. Aliás, a ideia subjacente é um óbvio retrocesso, pois impõe condicionalismos a um cargo que, de uma penada exclui metade da população mundial. Será que o próximo terá que ser homossexual?

Da televisão

Olho para a televisão e vejo em simultâneo tantos programas.

A história linear que contam. A mentira que querem dourar. A ilusão que estão a vender. O negócio que subjaz ao pequeno filme que fizeram e a razão deste acontecer. Os muito bem pagos minutos de fama transmitidos. A farsa do jornalismo. O jogo dessa notícia. A verdade que reside apenas nos livros de filosofia e de teologia.

Tudo não passa de um jogo de interesses em que, até como espectador, acabo por ser involuntariamente parte.

E o estado lastimável a que isto tudo chegou.

Movimento

A ideia de movimento
É tida como forma
De demonstração de vida.
E no meio de tantas ideias,
Que, eternamente,
Em mim se movem
Quda-se a sugestão
Que vida, também existe,
Nesse eu.

Marotice

E a mãe vem, velando...
Vê para onde olhas,
Que estas não são para ti.
Mil vezes as minhas
Que as da minha filha.

Ou não fosse , também, mulher!
E, por tal, também deseja o teu desejo.

Lendo 181

"(...)Quem pasma a ver para trás
- Nem caminha, nem descansa..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 66

Apesar de perceber a ideia que estava na mente do poeta, de quem remói o passado incessantemente, queda-se em frustração contínua em vez de olhar para a frente e ultrapassar as contingências. Mas, e por outro lado, a reflexão sistemática do que se passou pode transformar aquele que a faz com verdade e com sentido numa pessoa mais sólida. Portanto verifica-se um paradoxo de rever o passado e manter essa revisão em alerta e andar em frente. Também, o andar em frente é fabricar mais passado. 

domingo, 14 de agosto de 2016

Lendo 180

"Senhoras, se o que pensais
Deixasse vestígios claros,
Os divórcios eram mais
E os casamentos bem raros..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 55

Segue, um pouco, o caminho de outra quadra  aqui apresentada. É que essa coisa de ser mulher tem mais de diabo do que de santa. Ainda assim, masoquista me confesso, amante de todos estes diabos.

Lendo 179

"Procuraste outra que fosse
Forma parelha da tua.
Marinheiro de água doce
Chega ao mar alto... e recua"
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 45

Esta é dedicada a um casal que é a representação pública deste poema escrito em 1920.

Lendo 178

"Já te conhece a andorinha
Que vive no meu telhado
E diz-me assim: Ó vizinha,
Lá vem o seu namorado..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 44

Quantas vezes as andorinhas são mundo inteiro que sabe, vê, sente e quase cheira o que o casal sente. Este pensa que a descrição é a sua arte, esquecem-se, por outro lado, que o sentir é muito superior que o melhor teatro.

Lendo 177

"São os dois peitinhos dela
Outeiros de lindo cume.
Trago lá de sentinela
Num o amor noutro o ciúme..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 34

Os peitinhos dela... Não conheço homem nenhum, que o seja, de facto, não traga sentinela nos peitinhos dela. Acontece, todavia, que não é amor nem ciúme, apenas o desejo.
Já tive oportunidade de me deslumbrar sobre este tema dos peitinhos noutra ocasião e continuo a afirmar a sua magia magnética.

Nota: O ciúme é absolutamente despropositado, pois que se todas as elas têm dois peitinhos, não se pode querer ser tão polígamo e reter todos eles. Haja o deleite de os contemplar, tal como os restantes homens o fazem.