domingo, 15 de janeiro de 2017

Lendo 212

"(...)
Meu amor
o verbo amar
não nasce
de fora para dentro."

Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 137

Sem mais que possa dizer.

Lendo 211

"vou desistir de ti.
És-me intermitente.

Preciso de alguém
que embora inútil
esteja presente."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 133

Isto é, dramaticamente, o resumo de algumas vidas que com quem convivo. Precisam de inúteis com quem convivem. Secaram-se.

Lendo 210

"(...)
Nasci.
Foi talvez mal."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 127

Poderia ter escrito e assim não me explicava.

Lendo 209

"Quando não se dorme
está-se à escuta
doque a nossa voz
no silêncio enorme
tem pra nos dizer.
(...)"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 91

Aquele que não teve uma insónia que atire a primeira pedra

Lendo 208

"(...)
Saudade
é uma palavra
a semear
(...)
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 85

A saudade é um sentimento de amor, pois que só tenho saudade do que amo, do que amei e do que vou amar.

Lendo 207

"Vivo noutro mundo
a fingir de gente

E assim me afundo
fisfarçadamente"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 83

A arte da sobrevivência que, às vezes, não passa de um suicídio adiado.

Lendo 206

"(...)
Porque o prazer amor
não sabe ser maior
que o desejar."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 67

O verdadeiro prazer, aquele que se sente demoradamente, é a saudade do beijo de ontem que se poderá repetir no amanhã eterno.

Lendo 205

"Nunca te amei
(Nem no princípio nem no fim)

Mas o teu amor fez-me tão bem!

Ensinou-me a gostar de mim
como nunca gostei de mais ninguém."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 63

O desastre anunciado. Ser amado sem amar. E sê-lo para si mesmo, em vez de ser para o outro. Diria que devia estar descrito nos mandamentos de Moisés, ou no código civil. Não serás amado se não amares também.

Meditação avulsa

A mulher quando está com os azeites é azeiteira?

Lendo 204

"O desamor dos outros
quase não faz mal.

De pouco monta
a indif'rença alheia.

O problema real
aquele que conta

é o ficarmos sós
com a ideia

de termos deixado
de gostar de nós."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 55

O amor, o desamor e a nossa auto-estima. Um desamor é uma certificação da nossa incapacidade de amar e de sermos amados, até por nós mesmos.


Lendo 203

"É um parar de vez
este ficar calado

Entre nós os três
Tu eu e o passado."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 49

Quando o passado ganha autonomia, onde aconteceu esse tu e eu, ganha uma certa autonomia ontológica e passa a existir como coisa que interfere.

Lendo 202

" Tu  Eu
Dois continentes em fogo
Frente a frente

E entre ambos
um corredor de vento"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 47

Não é o vento, essa fonte de oxigénio, que alimenta os fogos?

Lendo 201

"(...)
Esquecer-te não bastou.

Preciso de esquecer
que esqueci de ti."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 17

Quando para lá da memória, é preciso rasgar o tempo.

Aforismo

O gesto que toca, toca, por vezes na eternidade.

Lendo 200

"A Eternidade
É cada gesto

que uma vez feito
não se pode
desfazer."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 15

A eternidade não tem que sem o fica para além do tempo, mas o que residirá em todo o tempo. Será a dessacralização da ideia de eternidade? A sua democratização? A sua irrelevância? Não o creio.
Sigo mais a ideia que um gesto simples como passar os dedos macios sobre um braço, um momento inesperado de ligação, pode ser eterno porque jamais desfazerá a impressão que deixou.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Na memória

Quando chego à tua memória em mim
Não é o corpo que encontro
Nem é o rosto
Nem as formas
Ou o sexo sequer.
É sempre uma ideia
Uma sensação
E um estar.
Contudo é,
Também,
Por ser esse rosto
E por serem essas formas
E esse sexo
Que resiste essa memória

Lendo 199

"(...)
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
(...)"
Mia Couto in raiz de orvalho e outros poemas, Editorial Caminho, Lisboa 1987, 6ª edição, pág 20

Ler este excerto é tocar em alguma coisa maravilhosa e partilhar dessa beleza.

Tempo emprestado

Somos coisa que passa
Num tempo emprestado
Que por aqui gastamos

Palavras que não lês

Escrevo palavras que não lês.

Coisas que ficam, assim, ditas,
Algumas sentidas,
Outras lastimadas,
Umas tantas calorosas,
Tal como inflamadas
E aquelas saudosas
E até chorosas, também.

E insisto...
Não só nas letras,
Como, também, em ti.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O meu público

Ter um caminho,
Uma estrada para correr,
Por mais turbulenta que seja,
Aziaga até,
Controversa
Ou meramente desinteressante...
É o meu caminho.

E não te creias sozinho,
Ou único
Nesse banco crítico,
De alta voz,
Até palestrante...
Não!
Nada disso.
Tens uma fila atrás de ti!

E sou eu que a encabeço!